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NeoSpace: a startup de Uberlândia que aposta em dados em vez de linguagem — e foi comprada pelo Itaú

29 out 2026

⏱️ Tempo de leitura: ~5 minutos

Introdução

Quando se fala na corrida global da inteligência artificial, os nomes que aparecem costumam vir do Vale do Silício ou da Ásia. Em 26 de outubro de 2026, um nome brasileiro entrou nessa conversa por um caminho pouco comum: o Itaú Unibanco assinou contrato para comprar 100% da NeoSpace, startup de IA fundada no fim de 2023 em Uberlândia (MG), por R$ 2,925 bilhões.

O valor chama atenção, mas o que torna o caso interessante é a tese técnica da empresa. A NeoSpace não desenvolve um chatbot nem adapta modelos estrangeiros. Ela treina modelos fundacionais próprios, voltados não a textos, mas a dados corporativos — o que a empresa chama de Large Data Models (LDMs).

Quem é a NeoSpace

Entre os fundadores estão Bruno Pierobon, que segue como CEO, Felipe Almeida e Gustavo Debs. O trio já tinha histórico com o mesmo comprador: eles criaram a Zup, empresa de software cujo controle o Itaú adquiriu em 2020.

A trajetória da NeoSpace foi rápida:

  • Janeiro de 2025: rodada de US$ 18 milhões liderada pelo Itaú, que aportou US$ 15 milhões e ficou com 15% da empresa. Participaram também investidores ligados à General Atlantic e à Ribbit Capital. A startup foi avaliada em cerca de US$ 100 milhões.
  • Março de 2026: a empresa apareceu no palco principal da GTC, a conferência anual da NVIDIA.
  • Abril de 2026: projetou faturar mais de R$ 300 milhões no ano, com expectativa de dobrar a receita anualmente.
  • Setembro de 2026: negociava uma nova rodada de até US$ 250 milhões, com avaliação de US$ 1,25 bilhão.
  • Outubro de 2026: em vez da rodada, veio a venda integral ao Itaú.

A empresa afirma ser a maior usuária de GPUs NVIDIA B200 da América Latina — cerca de 1.200 unidades, hospedadas na Austrália — e planeja quintuplicar a capacidade de computação em dois anos.

O que é um Large Data Model

Os grandes modelos de linguagem (LLMs), como os que movem os assistentes de conversa, foram treinados para entender e produzir texto. A proposta da NeoSpace é outra: um modelo treinado para interpretar grandes volumes de dados de operação — transações financeiras, histórico de consumo, registros operacionais, informações industriais — e documentos em qualquer formato.

Segundo a empresa, o LDM mapeia relações entre os dados, identifica padrões complexos e gera recomendações ou ações em tempo próximo do real. Um exemplo de método divulgado: o modelo usa 24 meses de dados de usuários, sendo os 18 primeiros para aprender padrões de comportamento e os 6 últimos para validar as previsões.

Na prática, a NeoSpace oferece uma plataforma para que cada empresa treine seu próprio modelo com seus próprios dados.

Onde a tecnologia é aplicada

Os casos citados pela empresa e pela imprensa incluem:

  • Bancos: crédito, relacionamento com clientes e prevenção a fraudes. Os modelos já vinham sendo treinados com dados do Itaú nessas três frentes.
  • Telecomunicações: previsão de cancelamento de clientes.
  • Aviação: otimização de rotas e de consumo de combustível.
  • Energia, óleo e gás: apoio a decisões de exploração.
  • Seguros, varejo e mineração: setores apontados como mercado potencial.

Sobre resultados, a empresa fala em ganhos de desempenho de 8% a 10% em alguns casos e de até 30% em outros, frente a modelos tradicionais de machine learning. São números divulgados pela própria companhia, sem auditoria independente.

A compra pelo Itaú

O negócio foi comunicado ao mercado por fato relevante. Uma parte do valor é paga no fechamento e o restante em até cinco anos, sujeito a condições — o banco não informou o valor da primeira parcela. A operação ainda depende de aprovação do Cade e do Banco Central, sem prazo definido. Em dólares, o valor equivale a cerca de US$ 589 milhões.

Segundo o comunicado, a NeoSpace manterá gestão e equipe, mas deve passar a atender apenas o Itaú após as aprovações. A tecnologia deve alimentar o assistente de IA do banco, o ia.i. O presidente do Itaú, Milton Maluhy Filho, disse que a compra busca colocar o banco "entre as instituições que vão definir o próximo capítulo da indústria financeira global".

O que ainda não se sabe

  • Como ficam os clientes atuais de telecomunicações, aviação e energia quando a empresa passar a atender exclusivamente o banco.
  • O destino do escritório que a NeoSpace vinha montando nos Estados Unidos e das negociações em andamento lá e na Europa.
  • O valor da parcela inicial e as condições do pagamento restante.
  • O ganho financeiro que o Itaú espera da operação, não divulgado.

Conclusão

O caso da NeoSpace mostra uma frente da inteligência artificial que recebe menos atenção do que os assistentes de conversa: modelos fundacionais treinados sobre os dados de operação das empresas, e não sobre a linguagem. É uma aposta de que, no ambiente corporativo, o valor está em prever comportamento e risco a partir dos próprios dados.

Também é um caso de tecnologia de base desenvolvida no Brasil, fora do eixo Rio–São Paulo, que em menos de três anos saiu de uma rodada de US$ 18 milhões para uma venda de quase R$ 3 bilhões. Com a exclusividade prevista para o Itaú, essa tecnologia deixa de ser oferecida ao mercado e passa a ser um ativo de um único banco.

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